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  • Relatos reflexivos sobre o I Seminário de Capoeira do Ceará

    I SEMINÁRIO DE CAPOEIRA DO CEARÁ: José Olímpio Ferreira NetoMestre de Capoeira, Especialista em Educação, Bacharel em Filosofia e membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Direitos Culturais da Universidade de Fortaleza, usando ilistração de Rugendas (Dance de la Guerre), escreve seus

    Relatos reflexivos sobre o I Seminário de Capoeira do Ceará:

    O I Seminário para a Salvaguarda da Roda e do Ofício de Mestre de Capoeira do Estado do Ceará que aconteceu nos dias 17 e 18 de dezembro de 2016, promovido pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, autarquia ligado ao Ministério da Cultura) com apoio dos capoeiristas do estado, sobretudo da capital alencarina, teve como objetivo dar continuidade ao processo de elaboração de um plano de salvaguarda para a Roda de Capoeira e para o Ofício dos Mestres, ambos registrados como patrimônio cultural do Brasil pelo IPHAN, desde 2008. Além do reconhecimento nacional a Roda de Capoeira é patrimônio cultura da humanidade, reconhecida pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), em 2014.

    Inicialmente, foram abertas 100 inscrições para o seminário, com prioridade para os mestres, no entanto, essas vagas não foram preenchidas, mesmo o número de mestres sendo muito superior a quantidade de vagas ofertadas. Havia a previsão de abertura de inscrição para outros interessados, garantindo dessa forma uma participação mais ampla, mas mesmo assim, a adesão não foi como o esperado. A quantidade não foi representativa, deixando muitas formas de pensar a Capoeira de fora desse momento. Tal fato leva a algumas indagações sobre a divulgação do evento e sobre um possível posicionamento dos capoeiristas em relação a uma ação de iniciativa institucional, porém fruto de um longo processo de diálogo. Em relação à divulgação, houve, embora não tenha sido a contento, estava no site do IPHAN, do BNB (Banco do Nordeste do Brasil), no Facebook, além de ter sido divulgado no WhatsApp criado pelo IPHAN, que alberga o contato de inúmeros capoeiristas. Em relação à ideia de possível posição dos capoeiristas, seria preciso realizar uma pesquisa de campo para avaliar as falas dos mestres que não estiveram presentes, pois há inúmeros possíveis motivos e seria relapso da parte de qualquer pessoa pesquisador, técnico ou capoeirista afirmar algo a respeito. Além dos capoeiristas e técnicos do IPHAN, também estiveram presentes na discussão representantes de algumas instituições como universidades e secretarias de cultura, em sua maioria, também capoeiristas.

    O primeiro contato significativo, pós-registro, com o IPHAN Ceará e os capoeiristas do estado ocorreu em 2013, com a aproximação da Rede de Desenvolvimento Econômico e Sustentável da Capoeira do Ceará, movimento que reúne mais de 10 grupos de capoeira do estado com o objetivo de gerar renda para sua sustentabilidade; referida Rede promoveu um encontro no Centro Cultural Dragão do Mar de Arte e Cultura para que pudesse ser dialogado o desenvolvimento de ações oriundas do registro, foi também quando se iniciou uma pesquisa com os mestres atuantes no cenário local. Em 2014, com o reconhecimento mundial, houve um evento em comemoração que reuniu vários capoeiristas, no qual houve falas de orientação sobre o significado do registro. Outros momentos foram seguidos com reuniões e palestras, sendo intensificado no segundo semestre de 2015 e no ano de 2016 para pensar na organização desse seminário.

    Muitos conflitos foram gerados durante esse processo, nada incomuns às relações sociais, sobretudo, quando envolvem diversos e diversificados atores (há inúmeros pólos e linhas de ideias entre os capoeiristas, que se expressam teoricamente ou na hora do jogo através dos corpos em movimentos ou nas cantigas) de uma manifestação cultural que, em sua gênese, nega o Estabelecido. Dessa forma, conseguiu-se chegar a um momento de discussão, onde, apesar do número de participantes aquém do esperado, contou com debates fundamentados em vivências de mestres experientes e saberes acadêmicos.

    O evento contou com quatro turnos de trabalhos; no primeiro momento houve uma apresentação dos participantes, oportunidade para os mestres que compõem o corpo da Capoeira Cearense compartilhar um pouco da sua experiência. A dinâmica das discussões contou com quatro eixos, a saber: Mobilização Social e Alcance da Política; Gestão Participativa no Processo de Salvaguarda; Difusão e Valorização; e, por fim, Produção e Reprodução Cultural. Os participantes foram divididos em dois grupos, cada um ficou com dois eixos. As propostas apresentadas versavam sobre a realidade da Capoeira, algumas ideias são gerais, é comum ao que acontece em todo o Brasil, como a criação de Centro de Referências ou realização de Seminários para capacitação; outras mais pontuais, peculiares a nossa realidade, como o resgate de rodas tradicionais ou acervo de memória; e outras ainda bastantes criativas, como a do uso de aplicativos para localização de rodas.

    A questão levantada inicialmente, no texto, sobre a participação dos mestres e capoeiristas para que os resultados oriundos dos diálogos entre representantes do Estado e da cultura popular possam ter legitimidade também foi foco de debate. A relação Cultura e Estado precisa ser superada, os diálogos produzem resultados para todos os lados, inclusive para além da visão dessa suposta dicotomia. A Economia também é um elemento importante nessa relação, adentrou no universo cultural. A busca para encontrar culpados de fracassos processuais cede espaço para a construção de relações que encontrem soluções e inovações, no fito das expressões culturais se materializarem em caminhos para seus atores. Percebe-se, a partir das falas expostas nos debates, o compromisso e o desejo de colaborar, cada um assumindo suas responsabilidades, para que esse processo possa gera frutos relevantes para as gerações presentes e futuras dando dignidade para aqueles que lutam por sua arte sendo ou não dependentes financeiramente dela.



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