Sambaquis, um patrimônio arqueológico e cultural com urgência de educação patrimonial*


Claudete Luginieski**

Atuei como Assistente de Direção e Social Media na produção de um documentário cujo assunto era os Sambaquis. Esse documentário era o terceiro episódio da série transmídia chamada O Lugar Antes de Mim, produzida pela empresa de audiovisual Ampler Cine TV e idealizada por Karla Nascimento, roteirista e diretora da série. A série conta com diferentes produtos e seu objetivo é difundir informações sobre patrimônio, inclusive patrimônio arqueológico1.
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O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) é o órgão responsável pela gestão do Patrimônio Arqueológico. Isso é assegurado pelo artigo 216 da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 e pela Lei n°. 3.924, de 26 de julho de 1961, a conhecida “Lei da Arqueologia”, a qual dispõe sobre os monumentos arqueológicos e pré-históricos, sendo considerados também patrimônio cultural e Bens da União. Segundo o verbete do Dicionário do IPHAN, a arqueologia “se caracteriza como uma ciência que se debruça sobre o estudo da materialidade elaborada pelas sociedades humanas como um dos aspectos de sua cultura”.
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Um sambaqui é um sítio arqueológico, composto por acumulações humanas, como conchas de moluscos, restos de animais, plantas, artefatos e outros registros da vivência do ser humano. Os sambaquis podem ser encontrados em quase toda a costa brasileira, com maior concentração no estado de Santa Catarina, com datações de aproximadamente 5 a 8 mil anos a.p., e existem sambaquis fluviais, compostos principalmente por conchas de caramujos terrestres que datam de cerca de 10 a 11 mil anos a.p. Pesquisadores assumem diferentes teorias e opiniões sobre a possibilidade desses povos sambaquieiros fluviais terem tido contato ou não com os da costa.
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Outro ponto relevante é que alguns sambaquis foram locais de sepultamentos humanos, estabelecendo esses espaços como espécies de cemitérios. A arqueóloga pesquisadora Cláudia Inês Parellada aponta que no Paraná há mais de “400 sambaquis litorâneos e 10 fluviais no Vale do Ribeira, desse total, 60 apresentam sepultamentos humanos, ou seja, foram construídos para homenagear os mortos.”
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Logo, é evidente como os sambaquis são considerados patrimônios arqueológicos, toda a materialidade envolta em suas construções caracteriza a nos dá pistas sobre como era o modo de vida dessas sociedades. E concomitantemente, esses patrimônios também são culturais, afinal, eles resguardam as maneiras que grupos de pessoas se relacionavam com o espaço natural, seja fauna ou flora, suas relações com a morte, suas ações medicinais, suas práticas de cultivo, caça e alimentação, suas relações entre si, e suas capacidades representativas do mundo através dos zóolitos, zoósteos e antropólitos.
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A questão é como preservar um patrimônio, que está totalmente em área aberta, sob ações do clima e do tempo, em regiões afastadas e camuflados na paisagem, seja costeira ou fluvial? Além do tombamento e fiscalização por órgãos competentes, pesquisas científicas acadêmicas e medidas de conservação, acredito que são necessárias duas frentes de trabalho educativo patrimonial, para compreender uma conservação efetiva também pela sociedade: Uma delas com as comunidades locais, que convivem cotidianamente com os sambaquis e outra com o segmento do turismo. Essas duas frentes podem ser justificadas e exemplificadas pelas seguintes experiências vividas durante as gravações.
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Ao gravar no sambaqui fluvial Estreito I, localizado em Adrianópolis, o qual foi cortado por uma estrada, paramos para almoçar em uma casa ao lado do sítio arqueológico. Conversando com os moradores, um casal de idosos, sobre o sítio arqueológico, eles nos disseram: “Ah sim, volta e meia acha uns ossinhos aí”. Vemos que a interferência humana contemporânea já foi extrema ao cortar o sítio com uma estrada de fluxo contínuo, deixando o perfil estratigráfico à mostra. Além disso, famílias locais lavram o solo acima do sambaqui, e claro, encontram remanescentes humanos e outros materiais.
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A diretora da série, após concluir o episódio, retornou a cada cidade que houve a captação de imagens, a fim de exibir o documentário para o público geral, crianças em fase escolar e para públicos que necessitassem de acessibilidade, como Libras, Legendagem Descritiva ou Audiodescrição2. Ou seja, já existem ações, e efetivas, nessa primeira frente. Mas é necessário a expansão e potencialização de ações como essas. Seria interessante equipes de mediadores e educadores, que se dispusessem a visitar famílias que moram em áreas próximas aos sítios, para dialogar sobre a importância desses “ossinhos” esporadicamente encontrados. Uma ação educativa, que parta do sensível e do reconhecimento da necessidade de simplificação das informações é a porta de entrada para mostrar como modos de vidas muito antigos ainda são importantes e precisam ser preservados.
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A segunda situação aconteceu nos sambaquis da costa paranaense, como o Sambaqui Ilha do Pinto e o Sambaqui Foz do Rio Poruquara, ambos em Guaraqueçaba, com acesso somente via barco. Ao chegarmos neles, os arqueólogos que nos acompanhavam, Claudia Parellada e Laércio Loiola Brochier, apontaram para vários remanescentes humanos que claramente foram movidos, e logo, descontextualizados, o que dificulta qualquer pesquisa sobre o espaço. Nessa situação, é necessário a primeira frente de ação educativa, ou seja, trabalhar com as comunidades que vivem próximas. Mas também se instaura a segunda frente: com os turistas.
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A porcentagem de turismo paranaense no litoral só vem aumentando, contanto tanto os próprios paranaenses, quanto pessoas provenientes de outros estados e países. As paisagens são um convite para o turista “experienciar a natureza”. Infelizmente, desconhecendo a existência dos sítios arqueológicos ou não conscientes da sua relevância, turistas, encantados com o “excêntrico”, interferem no espaço, que já conta com as ações naturais de degradação. Há casos de remanescentes serem levados ilegalmente como souvenires. Como agir para com esse público tão espontâneo e efêmero? Uma possível solução é: Atuar durante o deslocamento dos turistas rumo às ilhas, o qual acontece majoritariamente por barcos com seus barqueiros contratados. Materiais educativos, simples e objetivos, porém bem ilustrados, como folders e flyers poderiam ser distribuídos. Os barqueiros poderiam passar por uma curta e didática formação sobre esses espaços, visando a futura solicitação de repassarem aos seus passageiros informações concisas sobre o espaço visitado e a consciência de preservação desses sítios arqueológicos.
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Participei da produção, ou seja, das gravações e da pós-produção desse material aqui discorrido. Durante esse processo, além de me aventurar no audiovisual, conheci mais sobre o patrimônio, sobre o campo da Arqueologia e do território paranaense. Ao final percebi uma urgência: ações de educação patrimonial precisam se expandir para fora das paredes dos museus, centros culturais ou históricos, casas de memória, escolas e universidades. É no mundo que materialidades e saberes existem e persistem na história, logo, é para o mundo que as ações patrimoniais educativas precisam ir.
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*Texto elaborado como requisito avaliativo da disciplina de Direitos Culturais e Desenvolvimento Humano ministrada pelo Prof. Dr. Francisco Humberto Cunha Filho e Prof. Me. José Olímpio Ferreira Neto, no Curso de Especialização em Gestão Cultural da Universidade Estadual do Paraná.

** Bacharel em Artes Visuais pela Universidade Federal do Paraná, Tecnóloga em Design Gráfico (UNINTER) e Tecnóloga em Produção Cultural (UNIASSELVI). Mestranda em Artes Visuais pela Universidade Estadual do Paraná e Residente Técnica na Secretaria de Cultura do Estado do Paraná.

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1 É possível conhecer mais sobre a série em suas redes sociais ou na página da produtora no YouTube.
2 As escolas públicas dos municípios também recebem versões do material em pendrives para seus acervos pedagógicos. Também é possível assistir aos episódios de forma online e gratuita.

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Bibliografia consultada:

BIGARELLA, João José (org.). Sambaquis. Curitiba: Posigraf, 2011.
O LUGAR Antes de mim – Sambaquis. Direção de Karla Nascimento. Curitiba: Ampler Cine TV, 2023.
SALADINO, Alejandra; PEREIRA, Rodrigo. Arqueologia histórica. In: GRIECO, Bettina; TEIXEIRA, Luciano; THOMPSON, Analucia (Orgs.). Dicionário IPHAN de Patrimônio Cultural. 2. ed. Rio de Janeiro, Brasília: IPHAN/DAF/Copedoc, 2016. (verbete). ISBN 978-85-7334-299-4