UMA ODE À IMORTALIDADE
Em concorrido lançamento havido na manhã do dia 15 de junho de 2024, na Academia Cearense de Letras, Gracianny Cordeiro, que integra a referida arcádia, lançou mais um livro em que explora destacado aspecto do mundo helênico da antiguidade: “Contos da Mitologia Grega“, cujo prefácio, elaborado pelo Professor Humberto Cunha, passa a ser reproduzido.
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Ao ser honrado pela autora deste livro, Grecianny Carvalho Cordeiro, em ser um dos primeiros leitores dos originais e, ainda, com o convite para redigir o prefácio, por coincidência, eu estava a ler “Mitologia e Filosofia”, de Luc Ferry, obra em que este pensador francês, nosso contemporâneo, decodifica, a partir do mundo helênico clássico, as três possibilidades de o ser humano atingir a imortalidade. Pus-me então a fazer uma daquelas leituras paralelas, que exigem muito de nós e ao mesmo tempo tanto nos enriquecem.
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A primeira via para a imortalidade, segundo Ferry, é pela procriação, a partir da qual quem consegue ser “genitor(a)” continua “geneticamente” vivo em seus filhos, o que é verdade, mas quase um prêmio de consolação, diante do fato de que os rebentos efetivamente vivem apenas as próprias vidas, não raro com rupturas extremas relativamente aos pais. Sim! Na obra de Grecianny, que o diga Édipo, aquele que, por força do destino, matou o próprio pai, casou-se com a própria mãe, com a qual gerou dois filhos e duas filhas, situação para a qual o herói tebano daria tudo, até a própria luz olhos (como efetivamente o fez), para jamais tê-la vivido.
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Outra forma de garantir a imortalidade, de acordo com as observações do filósofo francês, é praticar atos heroicos, consistentes em realizar o improvável, pelo que se pode receber o reconhecimento da humanidade, concretizado em destaques memorialistas, como estátuas ou poemas épicos, horarias para bem poucos e, mesmo a estes, a sonhada imortalidade não é garantida, pois deles é extraída a realidade dos fatos, uma vez que são comutados em termos de personalidade, atos e valores conforme o interesse de cada geração. Com efeito, a partir da obra da jurista cearense, basta que se pense em Páris que, quando ainda era chamado de Alexandre, foi escolhido para ser juiz da pueril disputa de quem seria a mais bela deusa do Olimpo, e que por se ter deixado guiar por sentimentos hoje tidos como menores, é, na contemporaneidade, escarnecido como um homem sem qualquer valor.
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A última das estratégias para vencer a morte, na obra francesa, por paradoxal que aparente, é de entendê-la como parte da vida e não como a representação do fim da existência, mas apenas mudança. É como se a sapiência contida no versículo que nos lembra nossa origem e nosso retorno ao pó, precisasse ser complementada com a lembrança de que isso pode ocorrer infinitas vezes. Lavoisier usou linguagem científica para dizer a mesma coisa: “na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Regressar ao pó, pode-se ver no compêndio cearense, ao invés de nos levar ao desaparecimento, nos reintegra plenamente ao cosmos. É o que entendeu Ulisses, na sua conturbada viagem de retorno a Ítaca, durante a qual recusou a oferta da apaixonada Calypso para torná-lo imortal e eternamente jovem; o marido de Penélope, na distância do lar, havia compreendido que a grande ventura somente pode viver aquela pessoa que consegue encerrar seus dias em paz com o lugar onde mora, as pessoas com quem convive e consigo próprio.
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São altamente filosóficas, portanto, as preocupações com a mortalidade, a origem, o porvir, bem como os comportamentos que devemos ter durante nossa existência, elementos esses abundantemente presentes nas histórias mitológicas de todos os povos, das quais as gregas certamente são as mais conhecidas, não propriamente por emanarem da Europa, mas por comporem um sistema em que os personagens frequentemente compartilham parentesco, linhagem, linhagem, valores…
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Entender a mitologia grega de forma sistêmica pode ser excessivo ao leitor comum, que naturalmente é conquistado a cada história com a qual tem contato; esse passo inicial, de tão significativo, com frequência leva ao desejo de aprofundamento.
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A porta de entrada no universo da mitologia helênica, a partir do livro ora prefaciado, aparece esculpida com as vantagens da simplicidade, mas ao mesmo tempo com a noção do “todo”. A simplicidade consiste na forma literária escolhida para apresentar as histórias, o conto, por ser conciso, mas que contempla todas as fases que esperamos de uma narrativa: começo, meio e fim. A noção “do todo” está na quantidade farta e no sequenciamento adequado dado às aventuras e desventuras dos mitos.
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Com esta obra, a autora, que é uma das integrantes da Academia Cearense de Letras, e que, portanto, usufrui de um outro tipo de imortalidade, a dos literatos, pessoas que varam os tempos e as gerações por aquilo que escrevem, presta mais um contributo à tradição humanística, reavivando, com pitadas próprias de interpretação, os mitos da tradição multimilenar, mantendo-os vivos e em constante metamorfose.
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É uma obra excelente e para todas as idades, mas atrevo-me a dizer que é daquelas altamente recomendáveis às crianças e aos jovens, cujas idades são muito propícias ao aprendizado a partir do encantamento. E este livro é, sem trocadilho mítico, encantador.
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Francisco Humberto Cunha Filho