Página de exemplo
O Valor Cultural do Jarê em Ibicoara, Chapada Diamantina*
Caroline Ferreira Mota da Silva**
Ibicoara, segunda cidade mais alta do arquipélago da Chapada Diamantina, abriga os sussurros dos antepassados entre as pedras e os riachos, onde há a tradição: o Jarê. A tradição do Jarê encontra-se em pequenas comunidades rurais, com casinhas pequenas e ricas em simplicidade. Nesses espaços, famílias se reúnem para um momento litúrgico de fé e manifestação cultural afro-indigena. O ritual, enraizado na religiosidade afro-brasileira, permite que mulheres soltem seus cabelos e dancem em transe do empoderamento libertador ao som do tambor e histórias cantadas que rememoram sua ancestralidade.
*
O Jarê, é uma expressão única de sincretismo, fundindo elementos das tradições bantu e nagô com nuances do catolicismo rural, da umbanda, do espiritismo kardecista e das tradições indígenas. Seu nome, possivelmente derivado do iorubá “quase cair ao solo” ou “cortar através”, evoca a essência da experiência espiritual que ele representa. Já Ibicoara, nome também de origem indígena, significa barro branco, o que faz menção às terras argilosas brancas encontradas na região.
*
O Jerê conta com elementos singulares em sua tradição. Instrumentos únicos, uma inversão melódica no pandeiro por um preto velho, um altar cheio de elementos “achados”, entidades indígenas, liderança matriarcal e muito mais nos encontros que eles chamam de “samba”. Em uma das casas de Jerê em Ibicoara, que atualmente conta com 3 casas, tem-se escrito na frente: Proibido crianças, proibido fumar, e proibido bêbados. Diferente de outras tradições afro-brasileiras , o Jerê não era aberto à crianças? Não faria o uso ritualístico do tabaco ou do álcool? Durante a visita, sob portas fechadas e entradas pelas portas dos fundos, aconchegados em um pequeno salão, crianças e exus coabitam enquanto sirenes da polícia e suas luzes passam pelos freixos da porta.
*
A intolerância religiosa advinda do racismo religioso trouxe grandes impactos, a cidade que antes tinha seu centro em uma comunidade rural mudou-se para os arredores da nova igreja católica erguida (1967). Hoje, o Jarê enfrenta desafios para sua sobrevivência, incluindo a diminuição do número de casas de culto e a silenciosa perseguição histórica por parte de uma visão hegemônica da fé e da cultura. No entanto, sua presença persiste, testemunhando a resiliência e a importância para as comunidades que o praticam. A livre expressão da cultura afro-indígena enriquece a cultura local.
*
Os rituais do Jarê são momentos de profunda conexão espiritual, reunindo pessoas de todas as idades em celebrações que duram horas, senão dias. Os curadores, pais e mães de santo, mediadores entre o mundo humano e espiritual, desempenham um papel fundamental, guiando os que buscam em busca de cura e fortalecimento espiritual. Além de sua importância religiosa, o Jarê também enriquece o patrimônio cultural da Chapada Diamantina, inspirando artistas, escritores e pesquisadores. Referências literárias, como o romance “Torto Arado” de Itamar Vieira Junior, dão voz à sua história e significado, mantendo viva a memória desta tradição ancestral.
*
Investir na preservação e promoção do Jarê é investir na identidade e na diversidade cultural da Chapada Diamantina. Apoiar pesquisadores culturais patrimoniais dedicados a documentar e estudar essa prática é garantir que as futuras gerações possam desfrutar e se inspirar na riqueza espiritual e cultural que ela representa. Em suma, o Jarê não é apenas uma prática religiosa; é um símbolo vivo da história e da cultura da Chapada Diamantina. É nossa responsabilidade proteger e valorizar essa herança preciosa, para que continue a iluminar e enriquecer as vidas daqueles que a praticam e a celebram.
*
*Texto elaborado como requisito avaliativo da disciplina de Direitos Culturais e Desenvolvimento Humano ministrada pelo Prof. Dr. Francisco Humberto Cunha Filho e Prof. Me. José Olímpio Ferreira Neto, no Curso de Especialização em Gestão Cultural da Universidade Estadual do Paraná.
** Artista (UFBA), Educadora e pesquisadora, Especialista em Educação e Tecnologia (IFES), Mestranda em Ensino de Ciência e Tecnologia (UTFPR), Pós-graduanda em Gestão Cultural.
*
Bibliografia consultada:
Santos, C. A. (2021). O Curador do Jarê: Saberes e Práticas Tradicionais na Chapada Diamantina. Afros & Amazônicos, 2(4), 17–26. Recuperado de https://periodicos.unir.br/index.php/afroseamazonicos/article/view/6992
PIRES BASTOS, M. E. Enquanto a terra não for livre, eu também não sou: o jarê da Chapada Diamantina (BA) como resgate da memória em Torto Arado. Terra Livre, [S. l.], v. 2, n. 57, p. 741– 758, [s.d.]. Disponível em: https://publicacoes.agb.org.br/index.php/terralivre/article/view/2288